Dentro do Segredo – José Luís Peixoto

9789897220609

O que pode querer dizer um estrangeiro acabado de chegar a Pyongyang a um cidadão norte-coreano? Um guia de conversação comprado num hotel da capital dá umas pistas. Não basta aprender a dar os bons-dias.
Considera-se que pode ser útil algo como: “Proponho um brinde à vida longa e à saúde do líder Camarada Kim Jong-il.” Ou: “Quero começar por visitar a estátua de bronze do Camarada Kim Il-sung para exprimir as minhas condolências.” E quem não sentirá vontade de partilhar que “Pyongyang é limpa e bela e parece ter as melhores condições de habitação do mundo”? Ou talvez algo politicamente correcto à luz do regime local: “Os Estados Unidos têm de sair do Sul da Coreia. Não têm quaisquer fundamentos para permanecer no Sul da Coreia.”

De facto, para quê aprender a perguntar onde é o restaurante mais próximo se o mais certo é o guia ter tratado disso, e de tudo o resto.
A Coreia do Norte não é um local onde um turista (fará sentido esta palavra num sítio como este?) possa simplesmente ir à procura de um restaurante onde lhe apetece comer, ou decidir o que pretende fazer no resto da tarde.
De qualquer forma, não foi para isso que o escritor português atravessou meio mundo. Ou melhor: se calhar até foi…
Há muito tempo que queria ver uma ditadura de perto.

Antes de qualquer mal-entendido, convém talvez citá-lo a partir do seu livro e esclarecer:

“1 – Sou contra todos os regimes totalitários e ditaduras.

2 – Sou contra todos os regimes totalitários e ditaduras.”

“Há uma encenação grande para quem visita, mas há uma encenação maior para quem está lá. Essa é que é a grande encenação ali. Porque aquelas pessoas vivem num país completamente fechado e é tarefa do Estado criar uma ideia sobre todo o mundo que existe lá fora, não é?”

“Era muito importante que o texto tivesse um carácter documental, sério. Pelo tema e por aquilo que me propunha retratar… Nunca se tem completamente a noção do que é a verdade e do que está realmente a acontecer, porque existem versões antagónicas, e ambas às vezes parecem falhar, num ponto ou noutro. Quando colocamos alguma coisa em causa, depois sentimos a tentação de colocar tudo em causa. Por isso, muitas vezes sinto que aquela história não está completamente bem contada. A minha tentativa foi de a contar, mas apercebi-me claramente de que não estava a contar a história final e que certamente haveria muitos equívocos da minha parte.” “Não tive acesso a informação que permitisse acrescentar alguma coisa, mas senti que não havia esse livro: como é estar lá? Foi isso que me levou à Coreia do Norte.”

Tenho o desejo de um dia poder, também, efectuar esta viagem.
Deve ser extenuante, mas, ao mesmo tempo, interessante poder presenciar as mentiras transmitidas ao povo. Como se assistíssemos a uma encenação do inicio ao fim, onde eles se mostram donos e senhores do mundo, enquanto o seu próprio povo passa fome e vive “debaixo” do Sol dos seus líderes.

Deixo-vos aqui um vídeo partilhado ontem pela National Geographic, onde o Fotojornalista David Guttenfelder nos mostra uma rara visão da Coreia do Norte:

//assets.nationalgeographic.com/modules-video/assets/ngsEmbeddedVideo.html?guid=a46f014a-b9c4-4ebb-b713-caf1cb14c4b7

_Lilly_

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